A morena e o moço

Escrevo com a voz das ruas, dos bares, das salas vazias com a confessionária tela de um computador. E como é bom aceitar a impermanência das coisas e a permanência do ‘quando’. De quando em quando, de primavera a primavera, resolvi guardar, textos, todos eles, para quem sabe um dia publicá-los, sempre na inspiração de ser uma artista plástica das palavras, talvez na miniatura de uma sutileza qualquer. Destapei cada fase, cada gosto, cada bico, cada riso, cada textura, cada testemunho, cada carência, cada beirada, cada desejo. Ali, na época, apesar de grandes mentiras, gigantescas omissões, me fiz tua maior admiradora, moço. Incontável, vasto, copioso no tocante da essência, da energia e dos mistérios. Ímpar, mesmo não sendo o primeiro. Único, pela graça de ser especial. Pois de arrepios a arrepios, de olhares em olhares, de medos em medos, de beijos em beijos, de cheiros em cheiros, chegamos a este texto. Talvez um dos últimos conjuntos de palavras, bem escritas, que dão forma e fantasia a uma grande amizade que guardaremos. Piegas como eu, especial como você, inevitável, como a gente. Então, uma carta oficial de um sentimento sem sentido, que na época, invadiu, sem pedir a menor licença. Embora pareça um despropósito afirmar uma bela amizade publicamente, melosamente, desbaratinadamente, sem um instrumento que meça a intensidade disso tudo, eu o faço. E o diabo fez a orelha… todos esses dias depois da última vez que te vi, moço, foram regados a construção, de outros sentimentos, de parceria em conversas. De nada arrependo, só ganhamos, ambos. Em gênero, número e degrau. Tudo muda. E como é bom mudar. Minha bagagem, cheia de novos planos, talento roxo e uma pré-nostalgia de tudo que foi bom estão prontas para ir, na mão certa. Afastar, sim, inevitável, mas nunca nada vai deixar de significar poesia, taquicardia, suor e descoberta. Afinal, paixões assim não tem que ser um container de emoções, quadrado, concreto, duradouro. Contudo, por mais caloroso, definitivo e gigante que possa parecer, tudo que vivenciamos não tem como comparar, dosar. Mas tem como guardar. Pois então, ao contrário de todos seus ancestrais e os que ainda hão de vir, toma que este texto é teu, moço. Foram honestas todas as vontades de te ver, mas não discuto mais, assino novamente abaixo do acaso. Melhor agora, melhor agora, tudo muito melhor agora, os antigos sempre diziam que bons mesmo era os velhos tempos… Desta vez, talvez não, talvez eu não esteja mentindo, no fundo no fundo, era tudo movido e regado a amizade, não estou sendo hipócrita nem clichê, dá pra separar as coisas, como óleo e água. Talvez o oposto das grandes amizades incolores. Melhor desistir de entender. Saber lidar, levar, tornear, contornar. E a resposta, ta aí, soprando no vento. Sabe moço, três pontos finais alinhados, viram… reticências… (MG)

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